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Posição dos tacos: o que muda e o que não muda no rendimento

Recuar os tacos dá watts? Dois estudos mediram e não encontraram vantagem. O que o ajuste muda de facto, e como fazê-lo em incrementos de 2 mm.

Posição dos tacos: o que muda e o que não muda no rendimento — VTR Bike Lab, Oeiras

Há um conselho que circula em todas as línguas: recua os tacos e ganhas rendimento. A lógica é aparente — menos alavanca no pé, menos trabalho para os gémeos, menos energia desperdiçada. Duas equipas de investigação decidiram medi-la, e o resultado muda a forma de pensar este ajuste.

A resposta em 20 segundos

Nos dois estudos que mediram isto, mover o taco para a frente ou para trás não melhorou a economia nem o rendimento. Um não encontrou diferença no consumo de oxigénio, nem no grupo nem em nenhum indivíduo. O outro testou uma posição bem avançada e não achou vantagem substancial. O ajuste dos tacos não é uma alavanca de watts: é de conforto, de carga no pé e no tornozelo, e de alinhamento — e por isso continua a valer a pena fazê-lo bem.

Estudo 1: mover o pé para trás, até ao extremo

Em 2007, no Journal of Biomechanics, testaram-se 11 ciclistas de competição em três posições ântero-posteriores do pé, em dias separados e ordem aleatória:

  • frente — a tradicional;
  • trás — o taco a meio caminho entre a cabeça do primeiro metatarso e o extremo posterior do calcâneo;
  • meio — entre as duas.

Todos pedalaram a 90 rpm, a uma potência correspondente a cerca de 90% do limiar ventilatório (203 W em média). O consumo de oxigénio foi de 2705, 2696 e 2747 ml/min para frente, meio e trás. Sem diferença estatística no grupo (p=0,311) e sem diferença em nenhum sujeito individual (p≥0,156).

Nota a dimensão do que foi testado: a posição “trás” não era um ajuste de dois milímetros, era o taco praticamente a meio do pé. Se uma mudança dessa magnitude não moveu o consumo de oxigénio, uma pequena também não moverá.

Estudo 2: mover o pé para a frente, e medir tudo

Em 2009, um estudo cruzado com 10 ciclistas bem treinados comparou a posição preferida de cada um com o taco sob o arco do pé. Mediu-se muito mais do que oxigénio: teste incremental máximo, 30 minutos a potência fixa e 30 minutos de contra-relógio auto-regulado.

Os resultados, em relação à posição preferida:

MedidaVariação
VO₂max−0,5%
Potência de pico incremental−0,8%
Consumo de oxigénio em estado estável−2,4%
Frequência cardíaca em estado estável+0,4%
Lactato+8,7%
Potência média no contra-relógio−1,5%

A nuance interessante é esta: o consumo de oxigénio em estado estável desceu 2,4% — teoricamente, melhor economia. Mas a potência no contra-relógio desceu 1,5% e o lactato subiu. Uma medida melhorou; o que interessa, ir mais depressa, não. Os autores concluíram que não havia vantagem substancial.

A curiosidade: o que os estudos não mediram

Nenhum dos dois mediu conforto. Nenhum mediu dor. Nenhum mediu carga articular. Mediram economia metabólica e rendimento, e nisso foram claros.

Isto é a chave para os ler bem. Dizer “a posição dos tacos não importa” é uma extrapolação que a literatura não autoriza. O que se pode dizer é mais preciso: não é onde vais buscar rendimento, e continua a ser onde se resolvem queixas no pé, no tornozelo e na forma como o joelho corre. Muda-se por sintoma e por alinhamento, não por promessa de potência.

E há um efeito lateral que ninguém conta: recuar o taco de forma significativa altera a distância efectiva do pé ao selim, o que muda a extensão da perna. Quem recua tacos sem tocar no selim mudou duas coisas e só percebeu uma.

Procedimento, passo a passo

  1. Marca a posição actual antes de desapertar. Um traço de caneta poupa uma saída estragada.
  2. Referência de partida: a cabeça do primeiro metatarso — a saliência na base do dedo grande. Calça o sapato, apalpa, marca por fora.
  3. Um pé de cada vez, uma variável de cada vez. Ântero-posterior primeiro, rotação depois.
  4. Incrementos de 2 mm. Mais do que isso não é afinar, é recomeçar.
  5. Rotação por sensação, com o pé no ângulo que lhe é natural. Não há número para copiar.
  6. Nunca mexas nos tacos na véspera de uma saída longa. Testa em 30 a 45 minutos primeiro.
  7. Verifica o aperto dos parafusos depois da primeira saída.

Se depois de duas ou três iterações continuas às voltas, o problema pode não estar no pé — pode estar na altura ou no recuo do selim, que mudam o ângulo com que o pé chega ao pedal.

Onde esta evidência é fraca

Os dois estudos juntos têm 21 participantes, todos ciclistas de competição. Testaram cargas submáximas, num caso com cadência fixa. Nenhum acompanhou ciclistas ao longo de meses. E nenhum mediu o que mais leva gente a mexer nos tacos: desconforto. Não existe evidência de boa qualidade que ligue uma posição específica de taco a menos dor ou a menos lesões — quem disser o contrário está a ir além do que está publicado.

Perguntas frequentes

Então recuar os tacos não serve para nada? Serve para mudar onde a carga cai no pé e quanto trabalho passa pelo tornozelo. Não serve para ganhar watts — isso foi medido e não apareceu.

Qual é a posição certa? A que te deixa pedalar sem desconforto no pé e sem o joelho a fugir para dentro ou para fora. A cabeça do primeiro metatarso é o ponto de partida convencional, não uma verdade absoluta.

Tenho de mudar os tacos se mudar de sapatos? Sim, e é o momento em que mais gente perde a posição. Mede e anota a posição antiga antes de estrear os sapatos novos.

Fontes

  1. Van Sickle JR Jr, Hull ML. Is economy of competitive cyclists affected by the anterior-posterior foot position on the pedal? J Biomech. 2007;40(6):1262-7. DOI 10.1016/j.jbiomech.2006.05.026 · PMID 16901493 — https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/16901493/
  2. Paton CD. Effects of shoe cleat position on physiology and performance of competitive cyclists. Int J Sports Physiol Perform. 2009;4(4):517-23. DOI 10.1123/ijspp.4.4.517 · PMID 20029102 — https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/20029102/