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Dormência nas mãos e no selim a pedalar: o que diz a ciência

Mãos a adormecer no guiador ou pressão no selim? Não é o ciático. O que os estudos medem sobre o nervo ulnar e o pudendo, e o que fazer.

Dormência nas mãos e no selim a pedalar: o que diz a ciência — VTR Bike Lab, Oeiras

A partir de certa altura de uma saída longa, largas uma mão do guiador e sacodes os dedos sem pensar. Depois a outra. E levantas-te dos pedais dez segundos sem motivo aparente. O teu corpo está a resolver um problema de pressão antes de tu perceberes qual é.

A resposta em 20 segundos

A dormência a pedalar não é circulação “parada” nem é o nervo ciático. São dois nervos diferentes, em dois pontos de apoio diferentes: nas mãos é sobretudo o nervo ulnar (e às vezes o mediano), comprimido contra o guiador na base da palma; no selim é o nervo pudendo, na zona do períneo. Alternar a posição das mãos, manter o punho neutro, usar luvas com almofada fina e levantar-te dos pedais periodicamente reduz a pressão medida nos estudos. Dormência que passa em minutos é diferente de dormência que dura horas — essa merece ser vista por um médico.

O que se passa nas mãos

Num estudo prospectivo publicado no American Journal of Sports Medicine, 25 ciclistas foram avaliados antes e depois de uma prova de 600 km. 23 dos 25 acabaram com sintomas motores, sensitivos ou ambos — e isso aconteceu tanto nos experientes como nos inexperientes. Num segundo estudo, com condução nervosa medida em 28 mãos antes e depois de um evento de seis dias e 420 milhas, o que se alterou de forma significativa foi a latência do ramo profundo do nervo ulnar. O mediano não mudou.

O mecanismo foi medido directamente em laboratório: com 36 ciclistas experientes, registaram-se picos de pressão de 134 a 165 kPa na base da palma sem luvas. A posição que gerou mais pressão — e o punho mais estendido — foi a pega baixa do guiador de estrada. Luvas com almofada reduziram a pressão entre 10% e 28%, e o resultado foi ligeiramente melhor com espuma fina, não com a mais grossa.

Mais enchimento não é automaticamente melhor: a almofada grossa levanta a mão e abre o ângulo do punho.

O que se passa no selim

Aqui a medida clássica é indirecta mas muito clara. Em 46 homens saudáveis mediu-se a oxigenação na glande antes, durante e depois de pedalar: 60,5 mmHg de pé, 17,9 mmHg assim que se sentaram no selim — e retorno completo ao normal depois de 10 minutos de pé. Uma revisão sistemática com meta-análise, publicada na Sports Medicine em 2021, reuniu 22 estudos e concluiu que os selins sem bico reduzem a pressão perineal, mas ao custo de menos estabilidade e mais pressão na parte de trás. A mesma revisão diz que levantar-se dos pedais a cada dez minutos “pode ser eficaz e amplamente aplicável” — e assinala que essa evidência é indirecta.

Nas mulheres o quadro é menos estudado. Num inquérito a ciclistas de clube, após duas horas ou mais de pedalada, 34,9% relataram dormência genital e 40% desconforto vulvar — queixas ausentes no grupo de corredoras.

A curiosidade que trava a compra por impulso

O selim com recorte central é vendido como a solução óbvia. Num estudo com 48 ciclistas de competição femininas, aconteceu o contrário: quem usava selim com recorte teve, em média, 4 kPa mais de pressão perineal média e 11 kPa mais de pressão de pico do que quem usava selim tradicional. E os selins mais largos associaram-se a menor pressão de pico.

Ou seja: a largura, que quase ninguém mede, pesou mais do que o buraco, que todos vêem. Atenção — é um estudo transversal, não prova causa, e não se transpõe directamente para homens.

O que fazer na prática

  1. Muda de posição de propósito, não só quando já dói. Nos apoios altos, nos hoods, nos drops — e nunca uma hora na mesma.
  2. Punho neutro. Se o pulso está “quebrado” para cima ou para baixo, a pressão concentra-se onde passa o nervo.
  3. Luvas com almofada fina em vez de grossa. Testa, não assumas.
  4. Levanta-te dos pedais com regularidade nas saídas longas. É gratuito e é a recomendação mais consistente da literatura.
  5. No selim, começa pela largura — que apoie os ossos onde te sentas — e só depois pensa em recortes.
  6. Se o peso está todo à frente, o problema pode não ser a mão: é a distribuição entre selim e guiador — e isso mede-se.

Onde esta evidência é fraca

Quase tudo isto vem de eventos extremos — 600 km, seis dias, 420 milhas — e de amostras entre 25 e 48 participantes, muitas vezes sem controlo. Pressão medida numa placa não é lesão. Os estudos de selim em mulheres são transversais e usaram questionários não validados. Nada disto identifica a causa do teu caso, e um ajuste de bicicleta não diagnostica nem trata uma neuropatia.

Perguntas frequentes

Isto é o nervo ciático? Não. O ciático não passa pela zona de apoio do selim. No selim, o nervo em causa é o pudendo; nas mãos, o ulnar e, com menos frequência, o mediano.

Adormecer um pouco é normal? Uma sensação que aparece ao fim de horas e desaparece pouco depois de desmontar é comum nestes estudos. Dormência que dura horas ou dias, que volta sempre ou que afecta a força da mão não é para gerir com luvas novas — é para ver com um médico.

Trocar de selim resolve? Às vezes ajuda, às vezes agrava. A evidência aponta para largura adequada e variação de posição antes de qualquer compra.

Fontes

  1. Patterson JM, Jaggars MM, Boyer MI. Ulnar and median nerve palsy in long-distance cyclists. Am J Sports Med. 2003;31(4):585-9. DOI 10.1177/03635465030310041801 · PMID 12860549 — https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/12860549/
  2. Akuthota V, et al. The effect of long-distance bicycling on ulnar and median nerves. Am J Sports Med. 2005;33(8):1224-30. DOI 10.1177/0363546505275131 · PMID 16000656 — https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/16000656/
  3. Slane J, Timmerman M, Ploeg HL, Thelen DG. The influence of glove and hand position on pressure over the ulnar nerve during cycling. Clin Biomech. 2011;26(6):642-8. DOI 10.1016/j.clinbiomech.2011.03.003 · PMID 21458120 — https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/21458120/
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